O processo criativo, a obra e o espaço.

Gilberto Salvador é um artista que, em suas exposições, sempre surpreende o público. Talvez ele próprio se surpreenda, pois, embora afirme não haver em sua obra grandes mudanças, mas desdobramentos, revela a cada novo trabalho uma corajosa autonomia discursiva. Assim que, para quem esperava apreciar nesta grande mostra seus quadros ou gravuras, a surpresa fica por conta da presença unicamente de esculturas. Opção essa que não constitui o marco de uma nova etapa, mas a retomada de um caminho há muito transitado.
Com uma brilhante carreira onde a experimentação sempre teve seu espaço garantido, Salvador não se apega às respostas encontradas nem às soluções dominadas. Ao contrário, está sempre pronto a questionar seu próprio caminho e a se redescobrir. Percorre as diferentes possibilidades do contexto artístico de cada momento, considerando os aspectos interessantes de cada um, mas mantendo-se fiel a uma unidade pessoal de trabalho.
No início de sua carreira, motivado pela Pop arte, produziu gravuras onde a influência do material gráfico e publicitário se fazia fortemente visível. Tal ocorreu nos anos 80, quando desenvolveu uma pintura gestual impactante, com o uso de novas tecnologias da indústria química. Assim, o artista transitou por diferentes técnicas e tendências, absorvendo experiências e consolidando seu processo criativo.
Nos anos 60, no Salão Jovem Artista do MAC e na Bienal de São Paulo, Gilberto Salvador iniciava sua trajetória, expondo ousadas peças em metal e policromia. Essas propostas, bastante próximas ao exercício da arquitetura que ele também desenvolvia na época, marcam uma experimentação que ele retoma hoje com as esculturas da presente exposição.
Os trabalhos que integraram a Bienal Internacional de São Paulo, em 1969, estavam inseridos em uma temática sobre a robótica, a partir de um texto de Isaac Assimov’, “Eu, o robô”. O artista criou suas peças com formas geométricas geradas por fórmulas matemáticas e elaboradas com aço inoxidável e espelhos. Uma iluminação intermitente, que se originava na base das formas orgânicas pintadas de vermelho, à semelhança de sangue, e que se espraiava pela área de instalação das mesmas estabelecia um pulsante contraste com as formas geométricas sobre elas. O ritmo da luz traduzia uma pulsação irregular, como se um elemento vivo e orgânico brotasse de máquinas cibernéticas. O vermelho das superfícies pintadas na parte interna das esculturas parecia espalhar-se, simulando manchas de sangue sobre o piso, elaboradas com plásticos, seguindo uma ordem seqüencial, como que emanava de cada escultura.
As criações expostas no Salão Jovem Artista do MAC eram constituídas de estruturas de aço inoxidável com as superfícies côncavas e convexas, no interior das quais se inseriam pequenas peças esféricas ou cúbicas de diversas cores. Os trabalhos com superfícies de aço inoxidável polido apresentam um dualismo pelo espelhamento das superfícies, atuando no sentido de enfatizar a reflexividade, absorvendo o ambiente em que se encontram e diluindo quase por completo a obra criada. As superfícies se refletem umas nas outras, levando ao aparecimento de geometrias que não fazem parte do formato físico da obra. O que se mantém visível é a trama interna dos cubos e das esferas coloridas, a indicar as formas da escultura e do espaço. O importante nesses trabalhos, entretanto, não é a seleção de um material a partir de um avanço da tecnologia do metal naquele momento, mas a linguagem a serviço da qual esse vocabulário foi posto em ação.
Nessas obras o artista desenvolvia a relação geométrico/orgânico que pontuou sempre sua trajetória. Sua presença na atual mostra, enfatiza a existência de um germe latente que se manifesta nesse momento com toda a sua maturidade. As obras atuais, de certa forma, mantêm o espelhamento das superfícies utilizado nos trabalhos da década de 60. O material agora explorado, entretanto, são lâminas de madeira tratadas com resinas coloridas em acabamento de alto brilho. A cor unifica os elementos dispersos do trabalho, oferecendo-lhe uma coerência interna, e o brilho da superfície pintada estabelece um elo imagético com seus componentes concretos. O refinamento da composição se aprimora no desdobramento dos planos, organizados em torno de movimentos helicoidais de segmentos, todos eles diferenciados entre si.
São peças que se desdobram no espaço, mantendo uma unidade formal quase suspensa. Se, em um primeiro olhar, elas parecem construídas de forma modular, nos seguintes se evidenciam compostas de diversos e diferenciados fragmentos, como se uma figura estilhaçada se recompusesse para nos permitir observar detidamente suas partes. Fugindo ao geométrico racional, Gilberto Salvador constrói unidades que estimulam a reflexão pelo instável, pelo ambíguo e pelo surpreendente.
O processo criativo
No processo criativo de Gilberto Salvador, o pensamento dialético é um suporte conceitual que se manifesta em duas principais direções: orgânico/geométrico e construção/desconstrução.
Orgânico e geométrico se articulam na própria ação manipuladora do material, uma vez que o artista trabalha formas abstratas geométricas em um processo construtivo semelhante ao de plantas ou de outros organismos vivos.
As obras resultam como uma manifestação desse pensamento dialético em conexão com o próprio material em que são feitas, rompendo a coerência entre os elementos isolados, mas permitindo que o observador se identifique com imagens reconhecíveis, tais como: elos, sementes ou cadeados.
Percebe-se uma rejeição aos princípios da organização geométrica tradicional, assim como é descartada a possibilidade de uma adesão romântica ao aspecto temático para garantir um sentido de distância formal entre o observador e o objeto. Sua racionalidade não se aproxima da vertente formalista do artista que age sobre o mundo de forma a organizá-lo dentro de uma lógica da razão, nem tampouco se abandona à intuição enquanto móvel de um processo investigativo.
O repertório de geometrias das capas polidas e curvas parece resistir, de início, a qualquer interpretação, exceto à da abstração; entretanto, ao serem geradas, formas orgânicas são definidas pelo princípio de intersecção, que atua como núcleo dos planos que dele se irradiam. As relações excêntricas, de um equilíbrio precário, em que as partes estão desconexas em termos do centro fixo, são ao mesmo tempo geométrica e organicamente construídas. A desembaraçada combinação de imagens orgânicas com a insistência construtiva estabelece uma relação cambiante e ilusória entre a superfície, o volume e seu centro. O artista cria fragmentos que, expandindo superfícies deslocadas em um eixo, formam ou carapaças maciças ou planos distribuídos no espaço.
A relação mais direta da obra de Gilberto Salvador com uma tradição clássica da arte abstrata geométrica torna-se problemática. Existe uma racionalidade operativa que não se enquadra naquela tradição. Entretanto, seu processo de trabalho nega também o espontaneísmo de uma construção romântica. Ele restringe o acaso, cerceando-o pela obediência a um sentido construtivo interno, determinado pela forma final do objeto. Ao invés de operar com módulos iguais e contíguos, ele justapõe peças diferenciadas entre si, como se explodisse a forma em busca de sua essência. Deixa apenas índices essenciais do objeto que representa ou com o qual pretende identificar o espectador. Problematiza noções como a da figura geométrica enquanto resultado de uma estrutura que se auto-define na modulação dos elementos. Estabelece um diálogo complexo entre abstração e figuração, subverte a utópica tradição construtivista, sujeitando-a pela introdução de elementos díspares.
O segundo aspecto do pensamento dialético do artista pode ser identificado no mecanismo de criação das obras, em que realiza, integradamente, um processo de construção formal por aglutinamento de planos, e outro de desconstrução, por desmonte da imagem. Assim, torna-se possível a Gilberto Salvador partir de uma forma final que será definida de maneira mais determinante analisando os esboços realizados anteriormente, onde as opções pelos processos construtivos encontram a sua definitiva função. Como, em outros casos, ele pode elaborar pequenas soluções ou pequenas peças que vai somando dentro de uma estrutura gráfica pré-determinada.
Na maioria dos trabalhos, ele cria alguns estudos, como desenhos e desenvolvimento de sistemas estruturais rígidos, destinados a fornecer o suporte da peça. Portanto, o resultado final, às vezes, não é necessariamente o que obteve do estudo, mas sim uma somatória de soluções técnicas e estéticas que esses esboços descrevem. A dialética deste processo se evidencia na construção/desconstrução que ele realiza de forma dinâmica e interligada, fazendo com que, necessariamente, não se distingam entre si esses dois momentos.
Ao transformar massas físicas em planos pictóricos e estruturas, o artista processa uma transformação formal que não acontece de maneira evidente. Suas peças passam ao espectador a sensação de perpetuarem-se no espaço e no tempo. Nelas existem um momento de entendimento e um objeto de apreensão, que se conectam pelo desenvolvimento do pensamento dialético do artista. Não interessa se percebemos ou não as figuras com cujos títulos o artista maliciosamente batiza cada trabalho – cadeados, elos, fitas ou sementes – são meros desvios do pensamento.
O essencial é que, em cada obra, existe um processo criativo que se desenvolve em uma seqüência coerente, em que orgânico e inorgânico disputam palmo a palmo a hegemonia, processada em uma desarticulação e rearticulação da imagem, produzida pelo autor e refeita visualmente pelo espectador.
Assim, cúmplice nesta dialética, o público é o elo final da cadeia que Gilberto Salvador instaura com seus processos criativos. As complexidades que constituem sua poética e as fronteiras que ultrapassa concorrem para a ampliação das possibilidades de percepção do objeto e do mundo. O artista anseia por um espectador capaz de emergir nos seus dilemas, nos caminhos e descaminhos de seu processo construtivo, ampliando, ele também, sua própria percepção de estar no mundo.
A obra e o espaço
A experiência do espaço na obra escultórica se relaciona com o estar no mundo do espectador, mas também com uma espacialidade proposta pelo artista. Em princípio, existem duas maneiras de propor este relacionamento: oferecendo a vivência do trabalho como uma construção física em torno da qual o espectador pode se deslocar; ou, então, colocando-o diretamente em frente à obra, de forma a experimentá-la pictoricamente, como espaço planificado. No primeiro caso, a percepção física do material e a inteligência expressa na composição constituem dois aspectos de uma mesma observação da obra. No segundo caso, a articulação de um picturalismo com o substrato tridimensional do trabalho é um desafio a ser assumido.
A produção de Gilberto Salvador, apresentada nesta exposição, transita entre essas duas modalidades de experiência. A estética da ambigüidade visual que persegue está diretamente associada às estratégias em que um determinado plano parece deslocar-se pelo espaço, à medida que o observador escolhe um número de leituras ou observações possíveis desde sua localização externa à obra.
Em alguns casos, ele programa uma instigante qualidade plana que suscita imediata estranheza, não só pela frontalidade como pela centralização e diversificação de formas. As superfícies coloridas, planas ou curvas, irradiam um mundo de difração ótica, criando a impressão de uma imagem submersa e perdida sob uma capa polida. Em outros, explora o espaço tridimensional com volumes imaginários, cuja representação total se associa à relação existente entre o objeto e o espectador. O artista utiliza o brilho da superfície como um recurso adicional para garantir um sentido de distância formal entre o observador e a obra. O uso da cor acentua a sensação de separação entre os dois modos de existência no espaço, subverte os elementos estruturais produzindo ambivalências.
Gilberto Salvador enfrenta, também, as novas abordagens da paisagem urbana com obras que estabelecem com o espaço não uma relação de contemplação à distância, mas uma proximidade envolvente. Com seus trabalhos, ele toca a paisagem, faz parte dela, explora as diferentes proporções do espaço que o espectador experimenta e o que ele observa. Resgata as possibilidades de significação latentes, ou possíveis de implementar, buscando, de certa forma, retomar relações primárias do homem com seu ambiente, que a vida moderna muitas vezes faz desaparecer.
Vistas de longe, ou num olhar casual, as obras transladam elementos essenciais da pintura, a cor e o plano, para o espaço tridimensional, criando uma tensão permanente que não se resolve. No significado do objeto está implícita a marca do olhar do espectador. A indefinição, o alargamento ou a frontalidade de algumas peças podem ser simplesmente resultado de sua relação visual com a obra.
Ao adotar a grande escala, o artista se expõe ao diálogo com a cidade, com os planos das ruas, das passarelas, da arquitetura. Não o faz, porém, de forma impositiva; suas obras convivem harmoniosamente, como mais uma presença neste universo de imagens a desafiar o olhar. Suas esculturas se movem quase ruidosamente no espaço, seus planos se afastam angularmente de um lado a outro, abrindo a imagem abstrata e compacta formada pela vista frontal de modo a incluir fatias do espaço.
Se a origem da arte pública se encontra nos monumentos comemorativos que marcavam a relação dos indivíduos com determinada história e território comuns, as obras públicas de Salvador são marcos dos desafios do cotidiano. As cores e a dispersão no espaço destas grandes obras não aceitam o olhar displicente, instigam e questionam, ensejando uma participação mais íntima, mais pessoal. Elas estão como que soltas no ar, a convidarem cada passante a percorrê-las com seu olhar e seu corpo.
Incitando a uma apreciação que leva em conta tempo e espaços reais, exigindo uma posição não distanciada, o processo de apreensão da obra se dá no ato mesmo da visão. Existe nesses trabalhos uma inquietante contradição espacial, possivelmente a principal responsável pelo interesse suscitado pelos mesmos enquanto obra de arte.
Texto de Maria Amélia Bulhões - pesquisadora do CNPQ, professora e orientadora no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da UFRGS. Doutora pela USP, com pós-doutorado na Universidade de Paris I, Sorbonne. Organizadora e co-autora de vários livros, colabora regularmente com revistas nacionais e internacionais. Membro da Associação Internacional de Crítica de Arte, assessora artistas e instituições e realiza curadorias no Brasil e no exterior.
